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Palavras de Mestre

21 de set de 2010
Acordei e não tinha a menor idéia de como me surpreenderia com meu dia.

Hoje é o dia da árvore e exclusivamente por esse motivo a Empresa Google realiza o Doodle 4 Google, onde crianças aprendem conceitos sobre ecologia e sustentabilidade e depois aplicam os conhecimentos na Logo marca do Google e depois dos alunos terem feitos os seus desenhos eles vão para a prática onde plantam uma muda de árvore com os organizadores. A infraestrutura é espetacular e a atenção coma galerinha é surpreendente. Mas, não é por esse motivo que venho até aqui.

No auditório onde foram introduzidos os conceitos sobre ecologia, inesperadamente apareceu um escritor que tem milhares de fãs. Dos antigos aos novos, sem exceção. Os antigos contam suas histórias e os novos se encantam com elas. Estou falando nada menos do que do Ziraldo. Uma pessoa que nunca deixou de ser criança. Super simpático e atencioso com as crianças. No meio da surpresa ele resolveu abrir-se para perguntas feitas pelo auditório, imagine que tipo de perguntas pode fazer uma criança entre 8 e 10 anos. Tívemos perguntas como: "Qual foi sua primeira história?" "Qual a sua melhor história, sem valer o Menino Maluquinho?" Durante as perguntas ele ria bastante e se encantava com as crianças dizendo que 9 anos é a melhor idade. A grande pergunta veio de uma menina de 9 anos (claro né?) que questionou o início da vida literária de Ziraldo. Sim, ela perguntou como ele começou a escrever. E ele respondeu:
"Na sua idade eu tinha uma professora que não ensinava nada! Ela trancava a porta, sentava no lugar dela e lia romances, sabe aqueles de banca de jornal? E pra gente ele dava gibis. Que segundo o padre da igreja ali do bairro, era pecado ler gibis, porque falavam de guerra, greve e essas coisas. E porque era proibido, ai que a gente gostava mesmo. Um dia a gente pediu pra que ela lesse os romances dela pra gente, e não é que a gente gostou? Ai toda aula a gente revezava e cada um lia um pouquinho - E o Ziraldo dizia para as professoras 'não ensinem nada, deem livro pra essas crianças'. E exatamente por causa dessa professora eu comecei a escrever. E quando eu tinha por volta de 18 anos a galera da minha idade dominava a cidade, porque éramos os pensadores, os leitores, e isso, nos tornavam diferentes".
E terminou dizendo.
"Estudar é bom e ajuda, mas o mais importante é ler. Professores deem livros para os seus alunos e não ensinem nada. Porque como você vai explicar para uma criança o que é objeto direto ou indireto, se objeto é uma coisa que eles não podem tocar? Você vê alguém falando 'Gosto você', 'Mãe gosto você'. Ninguém fala assim, e a criança não sabe se que o verbo é transitivo direto ou intransitivo. Então ensinem as crianças a lerem".
Acho que ouvir isso me deu um pouco do gosto de ser criança e da minha vida antes da gramática, eu me sentia um milhão de vezes mais livre para escrever do que atualmente, sinceramente travo com todas aquelas nomeações para uma mesma frase. Não acredita então imagina decorar isso: Sujeito, predicado, núcleo, objeto direto e indireto, oração coordenada, oração subordinada, coordenada sindética e assindética, verbo transitivo direto, transitivo indireto, transitivo direto e indireto, adjunto nominal, advérbio adnominal e todo os restos que os gramáticos usam para se separarem das pessoas comuns. Eu odeio gramática, sim ela ajuda, mas eu a odeio.

E ouvir um mestre da literatura dizendo que o importante é dar assas a imaginação, foi um empurrão para o retorno a antiga vida. Tenho que trabalhar esse isolamento cerebral, onde esqueço da maldita pra apenas escrever, e escrever por prazer, como antigamente fazia. 



Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

Comentários
2 Comentários
2 comentários:
  1. Eu imagino o que é isso.
    É igual eu.Era mais fácil dançar sem dar nomes aos passos.As vezes me perco entre elevês e relevêS...HEHE
    BJo

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  2. Que texto incrivel. O Ziraldo foi certeiro na sua resposta.
    Ler o texto me fez sentir falta da infãncia também. A vida antes de tanta explicação, onde as perguntas mais complexas que eu tinha eram coisas como "como se escreve tal palavra."
    Eu preciso voltar a passar mais por aqui, sempre encontro algo bom de ler.

    beijinhos.

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