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Me dá seu endereço?

27 de abr de 2011
Com o advento da internet, antigos meios de comunicação foram esquecidos, abandonados e hoje é quase um crime.
O que há de errado em pedir o endereço de alguém? As pessoas acham que vão ser sequestradas, irão ter a casa invadida ou talvez apenas serem vigiadas. O que aconteceu com a confiança?Que o mundo é perigoso todo mundo sabe, que não devemos falar com estranhos também. Quem garante que a pessoa que está do outro lado da tela é ela mesma e não outra pessoa. Que merda tá confuso isso, enfim, o mundo tá uma merda.
Apesar de tudo estar avançando a velocidade da luz, os velhos modos são sempre uma novidade pra quem está acostumado com o mundo atual. Receber uma carta, é receber um presente em folha. É uma vida escrita, é sentimento e é real.
Emails são legais, mas cartas são mais interessantes. Elas trazem todo um caminho, todo um processo algo mais humano. Sente o clima:

Email
Você senta. Liga (agride) o computador com o pé. Digita a senha de login. Espera minutos (horas) até todos os programas (infinitamente desnecessários) iniciarem. Conecta na internet (se não for o clássico gato caseiro pra dividir a internet com os vizinhos e pagar 1/10 da conta). Aí você abre o navegador (mais três dias). Acessa Orkut, Twitter, Tumblr, Facebook, Formspring, vê os mais vistos do Youtube e esquece o por que ligou o computador. Duas horas depois de ficar vendo vídeos você resolve verificar os emails. Ai abre o Email que já tem a senha salva (se não for o Hotmail, porque essa merda não salva a senha). Se empolga com os milhares de emails de compra coletiva (claro porque isso é muito útil), depois com as correntes e por último aqueles da sua (mesma) amiga que encaminha todos os email que recebe de crianças ou animais desaparecidos. Decide mudar essa atitude e clica em Nova (pronto, vou escrever pra alguém). Digita a mensagem, cola algumas citações, trechos de músicas, confere a escrita com o corretor ortográfico (F7). Coloca o email do destinatário. Coloca com cópia pra você mesmo pra ter certeza de que vai chegar. Clica em enviar. Espera ansiosamente que apareça a frase "sua mensagem foi enviada com sucesso", aí volta a fazer as mesmas coisas sem noção, ou corre no twitter e digita "acabei de mandar um email para @fulano". Ai fica feliz por usar a tecnologia e espera a resposta por alguns dias (afinal a tecnologia é rápida, mas nem todo mundo aprendeu a usar o email ainda, ou não entende que é RSVP instantâneo).

Carta.
Você tá no computador (sim essa geração num serve pra nada 1/3 da vida dormindo os outros 2/3 na frente do PC), aquele tédio resolve voltar anos luz no passado e escrever uma carta. Pega a folha de sulfite, gruda ela com durex em uma folha de almaço (alguém ainda lembra pra quê que serve?) porque você não consegue escrever sem linha. Começa a escrever, erra, joga fora. Começa a escreve, erra, joga fora. Para. Se concentra. Começa de novo, fazendo aquela letra impecável. Escreve duas linhas, acaba o assunto. Caralho (sim essa geração também xinga o ar). Fica se remoendo achando algo pra contar, ai conta do cachorro, gato, papagaio, da sua família, do ex-emprego etc. Ai começa a perguntar da vida da pessoa que você já sabe como é, mas pergunta pra dar uma folha pelo menos, mas já tá de saco cheio porque escrever cansa e para de escrever. Levanta. Vai tomar um suco, falar com as pessoas da casa (porque isso também é um evento), usa o banheiro, se espreguiça, alonga, senta derruba a caneta e fala: Fodeu! Pensa com você mesmo: Ah Mano! Essa merda não vai mais funcionar (sim, caneta barata tec-tec caí no chão e pronto a tinta desaparece), fica massageando a caneta até voltar a funcionar, pra sua surpresa, ela não volta, você troca de caneta - você estava escrevendo de azul e pega outra caneta azul, mas a cor da tinta é diferente. Caralho eles não podiam usar a mesma tinta azul em todas as canetas - e volta a escrever. Não lembra onde parou e volta lembrando-se de algo muito antigo que já passou com a pessoa. Quase terminando a carta você erra, faz de tudo pra transformar um "p" em "d" ou um "e" em "b". Termina a carta, cansado. Lembra que o correio fecha as 16h00min e vai procurar um envelope. Merda! não tem envelope. Corre no bazar. Compra um envelope. Corre para o correio. Chega lá e não lembra em que lado vai remetente e em que lado vai destinatário, fica procurando aquele tutorial que fica preso na caixa do correio. Descobre preenche a carta com uma caneta de tinta preta que fica pendurada em uma corrente, porque brasileiro é malandro e nada pode ficar bobeando por aí, nem uma caneta, cola a carta com a cola do correio que é uma briga abrir, porque algum Filho da Puta colou a tampa, escreve Carta Social embaixo da área onde ficaria o selo e reza pra carta não passar de 10gr (Carta Social é até 10gr, e acreditem tinta pesa pra caralho). Ai você entrega todo o esforço, o suor para a mulher do caixa e pronto. Fica angustiado sem saber se vai chegar. Com sorte, três dias depois ela chega se for à mesma capital, ai assim que ela chega, 10 minutos depois a pessoa te liga dizendo que te ama e que sabia que você não tinha esquecido-se dela. Assim, você dorme feliz.

Fatos a ser analisados:

A gente perde o assunto em carta, mas não perde no email.
A carta demora mais tempo pra chegar, o email é instantâneo.
A carta é respondida instantaneamente, o email quando a pessoa tem tempo.
A carta surpreende, o email... Bem. Não.
Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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