Entre o Céu e o Inferno | Bang Bang Escrevi

Entre o Céu e o Inferno

28 de dez de 2012
Levantou. Não sentia mais vontade de viver ou de lutar pela vida. Tomou um copo de café-com-leite, com dois dedos de leite, porque era tudo o que restava na caixa e não colocou açúcar. Mesmo amargo cada gole era como se fosse o último.

Saiu. Resolveu quebrar todas as regras que tinha imposto sobre si, resolveu se entregar e fazer todas as coisas efêmeras, os vícios terrenos que já tinha deixado para trás há muito tempo. 

Chegou ao shopping onde está o céu e o inferno, mas isso era irrelevante. Passeou pelos corredores, entrou em uma livraria, pegou um livro, leu algumas páginas, conversou sobre o autor com a vendedora e saiu. Sentou na praça de alimentação para olhar as pessoas, seu passatempo favorito, esperava um sorriso ou algo do tipo, buscava algum afeto, mas ninguém sorriu.

Passava a novela na TV quando chegou em casa, sentou na cama que ficava ao lado da cama da mãe e assistiu até darem os comerciais enquanto estava ali não pensando. Deu boa noite e subiu até a casa da irmã para fazer o mesmo, desceu, deu um beijo na cachorra e trancou-se no quarto.

Pegou a mochila, retirou um saco de papel. Abriu-o mostrando uma .38. Lembrou da vida e de tudo que já tinha passado. Colocou o cano na boca, sentiu o metal gelado em seus lábios, sentiu, também, ser dono do seu destino, acabaram-se as preocupações, estava totalmente no controle e adorou essa sensação. Puxou o gatilho.

O estalar seco da agulha no tambor vazio.
Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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