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Rascunho de mim

24 de dez de 2012
Depois de algum tempo sem escrever, acho que é normal a insegurança da caneta. Odeio ficar escrevendo sobre o mesmo assunto e por isso dou um tempo, mas nunca funciona.

Nunca fui notável, não tinha nada de diferente, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem inteligente nem ignorante. Era comum e a intersecção de todas as qualidades e defeitos. Vivia viajando, não de avião ou de ônibus. Viajando no sentido de nunca estar, realmente, prestando atenção em algo. Era bom em fisionomias e péssimo com nomes e de quebra uma enciclopédia ambulante de qualquer assunto, sabia de muitas coisas sobre várias outras coisas.

Não conseguia mais me apaixonar, era solitário. Adorava a solidão e odiava me sentir sozinho, existe uma linha bem tênue entre esses dois estados, que não vou entrar nesse mérito agora. Morava em uma periferia qualquer da Zona Sul de São Paulo, afinal, nessa cidade de cinza uma favela a mais ou a menos não fazia tanta diferença. Os morros se fundiam com tudo. Fazia outro curso qualquer de uma faculdade mediana e me importava muito mais com meus hobbies do que com minha carreira. Almejava morrer antes dos 30 anos, mas sabia que chegaria fácil aos 50 e isso é complicado demais pra explicar. No geral, as pessoas têm esse desejo de viver muito, eu não, a cama do hospital e o fim da luz do meu cérebro é minha sentença de morte. E não importa a idade que vá para lá, se não tiver certeza de uma recuperação, por favor, deixem-me ir.

Esse desejo, o das pessoas, a fé absoluta em algo ou o inconformismo é tão forte que mesmo sendo um direito seu escolher se quer ficar ou não elas irão fazer de tudo para te manterem aqui, pertenço apenas a mim. Assistindo uma das minhas séries e quem me conhece sabe que são muitas, me deparei com uma das personagens mais arrebatadoras que conheci, Constance Langdon interpretada pela atriz veterana Jessica Lange que disse logo após a sua filha com Síndrome de Down morrer em um dos episódios:
“Um dos vários benefícios de ter filhos é saber que sua juventude não fugiu, apenas foi passada para uma nova geração. Dizem que quando um pai morre, a criança sente sua própria mortalidade. Mas quando uma criança morre, é a imortalidade o que os pais perdem”. 
Acho que nunca vou esquecer isso.
Bem, meu pai já tinha partido e minha mãe era louca, na verdade, muito feliz quando não estava preocupada com dinheiro. Deve ser a penitência das mães na terra nunca largarem o batente, sempre preocupadas com os filhos. Falo de mães de verdades, não dessas infelizes, que colocam filhos no mundo e depois querem ir para a balada extravasar no momento em que os filhos mais precisam de alguém com eles.

E já que entramos nesse assunto, vou logo tratar de eliminá-lo. Dinheiro. Não trabalhava, porque o mundo, sociedade ou escambau que fosse me obrigava a trabalhar em um lugar que eu não queria apenas para que eu tivesse dinheiro. Atribuí a mim um estilo de vida mínimo, sem luxo algum e eliminei a maior parte das vontades humanas criadas pelo maldito sistema, tendo assim de despesas comigo as que eram as básicas da casa. Não tinha mias uma religião, mas acreditava em uma força superior (Come to the Dark Side) que orientasse as coisas. É estranho pensar que tudo esta à deriva e é desesperador achar que Deus é um manipulador de fantoches e ficar discutindo isso tira o sentido da vida.

[fim da conexão]

Victor Candiani

Uma pessoa que gasta muito tempo com livros, filmes e séries.

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