Resenha | O Vampiro Que Ri, Suehiro Maruo: um quadrinho muito além do grotesco | Bang Bang Escrevi

Resenha | O Vampiro Que Ri, Suehiro Maruo: um quadrinho muito além do grotesco

20 de jun de 2014
Título Original: The Laughing Vampire
Autor: Suehiro Maruo
ISBN.: 8576160455
Número de Paginas : 233
Restrição : Impróprio p/ Menores
Editora: Conrad

Mês passado li numa tacada só a HQ "O Vampiro que Ri", de Suehiro Maruo.
Antes de mais nada, preciso ressaltar que essa não é uma HQ com uma historinha qualquer. A capa preta, com um garoto estranhamente pálido e com os dizeres escrito "QUADRINHO ADULTO" ressalta que esse conto não é típico do circuito mundial à la Shonen Jump ou Marvel da vida. Porém, na orelha do livro diz que os originais desse quadrinho custam pequenas fortunas no Japão: acho que isso nos dá uma dica de que esse quadrinho não é uma publicação amadora.
Antes de mais nada, "O Vampiro que Ri" é uma obra escatológica de horror com pitadas de pornografia freak. Resumidamente, o mangá conta histórias de crianças de uma mesma escola e as narrativas se entrelaçam no decorrer do livro. E como mote principal temos uma das crianças, um garoto, que se transforma em vampiro. Primeiramente o modo como ocorre essa transformação já é nojento por sí só: uma velha vampira - corcunda, horrenda e com um sorriso doentil - rasga sua própria lingua e dá uma bela de uma escarrada sangrenta na boca do moleque, obrigando o garoto a beber o sangue de um vampiro. Assim, ele se torna um ser dependente (químico?) de sangue e ganha uma doença na qual sua péle se irrita com a radiação da luz solar. Ha! Mais uma história de vampiro, certo? ERRADO. Mas calma... Quero falar mais sobre o horror do quadrinho.

Eu não sou uma pessoa que se impressiona facilmente com cenas de violência. Tanto é que no começo do livro, a cena da velha cuspindo sangue, pra mim foi facilmente digerível. Mas conforme se vai lendo o mangá, a coisa vai ficando mais escabrosa, nojenta e a garganta começa a ficar cada vez mais apertada e inquieta. Com cenas de violência, autoflagelação, estupro e até uma banheira com bebês mortos (!) me fez ficar perplexo. Quando terminei de ler, fechei o livro, falei em voz alta "Mano! Qual é a necessidade disso?". Fechei o livro com a certeza de que "O Vampiro que Ri" foi, acima de tudo, feito para impactar; dar um tapão forte na nossa cara e em todo o moralmente correto tão pregado pelos belos salões aristocratas; feito para gritar um "foda-se" bem grande para a polidez encontrado nos outros tipos de arte.
PRA QUE ISSO?!

Mas a indignação que ficou na minha mente foi "A fim DE QUÊ? Porque o autor teve que apelar tanto?". Daí comecei a captar algumas dicas pra responder minhas questões: O autor do quadrinho, Suehiro Maruo, nascido no japão em 1956, não teve uma vida qualquer. Foi o sétimo filho de uma família pobre do interior do Japão, teve uma adolescência difícil, aos 15 anos foi preso por roubo. Mas hoje é o mais importante representante do mangá underground no mundo. Ou seja: pode ser que ele esteja querendo falar sobre problemas que ele vivenciou nessa vida dura. Algo sobre a nossa natureza. Algo sobre os lugares podres das nossas cidades. Longe da lei, longe do moralmente correto.

Devo ressaltar que essa temática não ocorre por acaso.Traços sangrentos e show de horrores... isso me fez lembrar de Yoshitoshi, um consagrado artista nipônico, que viveu o fim do feudalismo japonês, no fim do século 19. Notório na tradicional arte de xilogravuras, Yoshitoshi aos poucos foi saindo do padrão de desenhos e aflorando seu estilo, que entalhado em madeira representava cenas grotescas de suicídio e torturas sangrentas. Uma das razões de Yoshitoshi desenhar isso pode ser facilmente interpretada: ele representava a brutal mudança que a invasão dos povos ocidentais causou no povo japonês, com sua imposição cultural por meio da arma, acabando com grande parte da cultura japonesa, que hoje achamos tão bonitinha nos filmes de samurais. O retrato de um samurai se matando com um tiro de carabina, nos dá uma dica sobre isso. Yoshitoshi é o retrato da calamidade desse tempo. É o que ocorre por baixo dos panos gloriosos... Mas vamos voltar pra Suehiro Maruo.

Repaginei o livro, e reli a história da tal bruxa corcunda do sorriso frenético [não é spoiler!]: Ela não foi vampira a vida inteira, ela era uma pessoa normal, só que sua aparência horrível fez com que cidadãos achassem que ela fosse um demônio, um monstro. Então espancaram-na e enforcaram-na até a morte. Depois enterraram seu corpo. Porém, ela reviveu, e a partir daí começa sua vida como vampira risonha.

Quê? Como assim? Uma pessoa só se torna vampiro a partir da mordida de outro vampiro, não? O monstro que cria outro monstro.

Resposta errada!
E foi nesse momento que eu percebi a força do grito de Maruo em cada página, em cada sangue jorrado, em cada show de horror: Quem cria os vampiros somos nós, os "normais".

Se existe vampiro é porque o nosso ódio se extravasou em seres iguais a nós ao designá-los como monstros, simplesmente por terem certas diferenças fora do padrão. E por termos colocado-os em tal posição, eles resolveram vestir a camisa e realmente se tornarem monstros.. e sugar todo o sangue de todos aqueles que chutaram-no.

Suehiro Maruo quer mostrar as amantes do governador; quer mostrar o pobre que passa fome na mesma rua que passam carros de elite; quer mostrar o tio que abusa da sobrinha; quer mostrar o homem "correto" do bairro que bate na mulher dentro de casa. Quer mostrar a podridão por baixo das máscaras.

E porque a vampirada ri?

Bem, num mundo onde a insanidade é a lei as pessoas encontram a paz na amoralidade, na capacidade de rir da desgraça. Para não enlouquecer. E, como diz o prefácio: "E agora, como vingança, exibem a própria monstruosidade para aqueles que construíram as desgraças do mundo".

Não abra as páginas do Vampiro que Ri sem antes saber que você vai sair completamente desconcertado.

PS: Vale lembrar que o quadrinho tem muitas outras facetas e interpretações e tudo que escrevi aqui é MINHA opinião e você pode tomar qualquer outra conclusão diferente ao ler o mangá. Portanto: LEIA. :)

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Lucas Andrade

É um ser estranho: Estudante de Biologia, ilustrador da HQ "Servo dos Servos" e ainda tem tempo pra pagar de malandro loki das quebradas do Grajaú.

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